A ESCRITA

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Trilhos e viagens

Um aluno entra aflito pela porta do Quinta Palavra hoje cedo. Diz-me Ana, não consigo mais escrever. Não consigo mais ter ideias. Não consigo mais que palavras fluam de dentro dos meus dedos, como você já me fez acreditar. Não, não é bloqueio passageiro, nem tente: é fato dito e consumado. As palavras já não me aparecem de manhã cedo, nem correm (andando já seria bom) na minha direção. Já fiz de tudo, e o fato é um só: tudo o que escreva tem alguém que está escrevendo. Não, não é que tudo já foi escrito. É que tudo está…
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De rua

Romualdo e Ivanir passaram há uma semana pela minha vida. Literalmente, puxando seus carrinhos de (pensei) recolha de recicláveis. Não. Eram as suas coisas mesmo, as suas casas ambulantes, com todos os seus pertences dentro delas, numa arrumação muito particular acima da lei da gravidade. Junto com eles, vários cachorros. Limpos, bem cuidados, bem alimentados, de pelo lustroso, olhos atentos e sossegados. Como se estivessem exatamente onde queriam estar, à vontade e satisfeitos com a vida. É Romualdo quem me diz: "você devia era se espantar de nós não estarmos tão cuidados quanto, não acha não?". Decerto. Ivanir está umas…
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Às nossas pegadas

Samuel chegou ontem, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Menino robusto e valente, tão decidido a abrir caminho a seus passos, que se anunciou para nós primeiro com o seu pé direito. Seu pai encantou-se com os pequenos dedos dentro d'água, um homem feito em sorriso puro de menino diante do milagre e da surpresa. A mãe, nos campos do espanto, olhos imensos transbordados da água que só uma mãe dando à luz carrega dentro dela. O espanto é a alma aberta, disposta, compreensiva dos caminhos que não conhece. Nós, os privilegiados ajudantes desse momento, silenciávamos, imersos…
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Os tempos morrem como morrem os homens

Os tempos morrem como morrem os homens. Podem haver imagens que fiquem gravadas e guardadas, mas há uma espécie de espírito, uma certa forma de vida e sentido, que se enterra quando aqueles que eram seus guardiões descem à cova. Morrem os homens, porque morrem os tempos? Porque a luta manifesta-se distinta? Porque os punhos se cansam de viver erguidos e sucumbem ao peso da passagem dos dias? Vejo as imagens do primeiro dia de maio de 1974, em Lisboa (é desse dia a fotografia que encabeça esta memória, com Mário Soares e Álvaro Cunhal em primeiro plano, e é…
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